Sem sadhu-sanga não se pode praticar bhajana

Uma carta para Viṣṇu dāsa (Delhi / Houston)
De Śrī Śrīmad Bhaktivedānta Nārāyaṇa Gosvāmī Mahārāja
(Escrita em Hindi)
28 de setembro de 2019

Śrī Śrī Guru-Gaurāṅgau Jayataḥ
 

Śrī Keśavajī Gauḍīya Maṭha
Mathurā (U.P.)
21 de maio de 1992

Querido Viṣṇu dāsa

Minhas bênçãos afetuosas. Recebi sua carta e fiquei satisfeito por ler como belamente expressou seus belos sentimentos em sua bela linguagem. Recentemente, Rāmacandra dāsa e um de seus companheiros (seu amigo) vieram aqui e ficaram muito felizes por saber que você me enviou uma carta. Rāmacandra dāsa, seus pais, irmão e irmã costumam vir aqui de tempos em tempos para me ver e ouvir hari-kathā

Fiquei mais satisfeito ainda por saber que sua mente agora está boa e que você tirou nota máxima em sua aula. Você não deve se preocupar com nada e deve focar sua mente exclusivamente em sādhana-bhajana e nos seus estudos. A possibilidade de se estabelecer como um chefe de família pode ser considerada mais tarde. Se um sādhaka tiver desenvolvido completo desapego da vida material (saṁsāra), ninguém poderá torná-lo apegado a vida mundana. E aquele em quem o desapego não tiver surgido, tal pessoa pode se estabelecer em vida material onde quer que vá.  

[No Jaiva-dharma] há Śrī Vijaya-kumāra e Śrī Brajanātha. Dentre os dois, Brajanātha era um jovem solteiro e Śrī Vijaya-kumāra era um homem casado de meia idade. Ambos receberam tattva-jñāna do mesmo guru. Depois disso, o jovem solteiro casou-se, e o homem casado abandonou sua vida familiar. Ou seja, Brajanātha se casou e Vijaya-kumāra renunciou sua vida familiar, aceitou paramahaṁsa-veśa (as vestes de um renunciante) e se ocupou na prática de bhajana de Bhagavān. 

A primeira lição é que bhajana pode ser praticado em ambos os estágios: como chefe de família ou renunciante, mas é extremamente essencial que se tenha acesso a sādhu-saṅga. Em ambas as situações não é possível praticar bhajana sem sādhu-saṅga

Em segundo lugar, por se praticar bhaktivairāgya (desapego) certamente aparecerá naturalmente. Este é um resultado secundário habitual à prática de bhakti. Deste modo, quando bhakti atinge o estágio de bhāva, o praticante não pode permanecer apegado a nada material. Quando o estágio de bhāva  de Brajanātha após casar-se amadurecer, ele certamente alcançará o estágio plenamente renunciado de paramahaṁsa, assim como Vijaya-kumāra, a despeito dele viver em uma casa ou não. Ter conhecimento (jñāna) e ter conhecimento realizado ou vivenciado na prática (vijñāna) são duas coisas diferentes. Quando o guru  de Brajanātha ordenou que ele entrasse na vida de gṛhastha, Brajanātha certamente tinha jñāna, mas não possuía a qualificação (adhikāra) para adotar a renúncia. Seu gurudeva deu a ele tal instrução somente após fazer considerações sobre sua qualificação.

Por se praticar  bhajana em sādhu-saṅgasambandha-jñāna (conhecimento sobre o próprio relacionamento com Kṛṣṇa) desperta. No primeiro momento, sambandha-jñāna surge com o auxílio da inteligência do praticante (buddhi). Depois disso, por se praticar bhajana, os anarthas são dissipados e, pela misericórdia de śrī gurudeva, o verdadeiro sambandha-jñāna é despertado. Nesse momento, a pessoa começa a executar bhajana com fé firme. [Gradualmente] ela alcança o estágio de ruci (gosto) e então desenvolve āsakti (apego) por bhajana e bhajanīya-vastu (o objeto de bhajana) e sua mente se torna estável. Embora possa existir uma causa para que a mente seja perturbada, ela não se pertubará. Nem mesmo um único momento não é desperdiçado sem se praticar bhagavad-bhajana, e o praticante se torna desapegado dos objetos do sentidos. A pessoa não mais anseia por elogios e honra (pratiṣṭha). Sempre existe uma forte esperança de que a pessoa seguramente alcançará Kṛṣṇa. Uma avidez por se alcançar Kṛṣṇa existe. Um ruci excepicional se desenvolve pelo cantar dos santo nomes e por se realizar kīrtana. A pessoa se torna aficionada por obter o darśana dos līlā-sthalīs de Bhagavān e neles residir. Um desejo intenso de servir aos Vaiṣṇavas está presente. A pessoa sente grande prazer em ouvir e falar hari-kathā. Esses são alguns sintomas.

É essencial cantar o gāyatrīgopāla-mantrakāma-gāyatrī e outros mantras especiais com amor e devoção. De alguma forma alguém pode cantá-los mais vezes do que prescrito para os três sandhyas. Por exemplo, os mantras podem ser cantados 108 vezes, mas a japa e kīrtana do mahā-mantra, ainda assim, devem prevalecer.  

Rāgātmika-bhakti existe somente nos associados ou companheiros eternos de Kṛṣṇa, tais como Subala, Śrīdāma, Śrī Nanda-Yaśodā, Lalitā e Viśākhā. Quando, dentro do próprio ātmaanurāga por Kṛṣṇa fluir natural e incessantemente, aquele serviço imbuído por anurāga é chamado de rāgātmika-bhakti. Um afortunado sādhaka deste mundo pode desenvolver uma avidez em seu coração por obter tal rāgātmika-bhakti. Assim, quando ele executar sādhana-bhajana sob a orientação de um rasika uttama mahā-bhāgavata, isto será denominado rāgānuga-bhakti. Em outras palavras, quando alguém pratica bhajana com rāga (apego ardente) é chamado de rāgātmika-bhakti, e quando rāga não está presente no coração, o sādhana para se obter tal rāga é chamado de rāgānuga-bhakti. Sobre o gopāla-mantra e kāma-gāyatrī é mencionado no Jaiva-dharma. Informe-me se recebeu esta carta. Aceite minhas bênçãos cheias de afeição. 

Seu eterno bem-querente,

Śrī Bhaktivedānta Nārāyaṇa

* Tradução para o português da edição on-line especial “Without Sādhu-saṅga, One Cannot Perform Bhajana” em homenagem ao Centenário do Vyasapuja de Śrī Śrīmad Bhaktivedānta Nārāyaṇa Gosvāmī Mahārāja em 2021: